segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A tecnica de ser

Era um dia como outro qualquer. Mas as 7h da manhã o Sol ja brilhava anunciando um dia mais quente que os anteriores.
Segunda feira. Acorda, levanta, respira e vai. Aquele recomeço de sempre e aquela preguiça de sempre também.
Mentira. Não era um dia como outro qualquer. Era o dia. Aquele que marcamos no calendário. Que ficamos sem dormir. Que as borboletas invadem o estômago e trocam a fome pela ansiedade.
Entraram no carro e se olharam. Tomara que dê certo dessa vez. Mais uma vez. Até quando a gente insiste? Até quando persiste? Quem limita o caminho de um sonho?
Para os outros, poderia ser um casal entrando no shopping. Para eles, era o abstrato de quatro paredes que agora seria o concreto visto pela imagem no ultrassom.
"Eles chegaram". "Bebeu agua?" "To bebendo".
Aguarda encher a bexiga que tomba o útero e abre o caminho. Bebe mais água.
Aguarda....aguarda....ta bom? Não...aguarda....aguarda.
Opa! Vamos? Ta cheia. Casa no lugar. Caminho retificado.

Na sala, a voz serena da médica propicia a calma necessária pra quem traz ansiedade, medo e expectativa. Respira fundo. Olha lá.
Eles se olham. As mãos se entrelaçam.
Os olhos brilham. É a esperança ali dando oi. Mentira. Oi é sutil demais. A esperança ali ta berrando. E ela vem com a cumplicidade. As duas se abraçam. E estão no beijo carinhoso. No olhar atento. No piscar prolongado. E eu, testemunha e algo sonhadora, ou talvez sonhadora e algo testemunha, sinto mais do que a técnica do aprendizado, sinto o amor entre eles que vem sob a forma de parceria. Do olhar pro mesmo querer.

"Ta vendo aquela gotinha? Ta lá, agora é so aguardar".
A vida é tao louca que a gente acha q descobriu seu segredo e trabalha com a receita.

A vida é tão louca que ela cabe num cateter pequenininho. Escorrega pra dentro da sua primeira casa. E fica.

A vida é tão louca que, a intimidade do casal, não é o corpo, ali, naquele momento, é a alma.

A vida é tão louca que a gente nem sabe se ela vai querer ser vida, mas naquele instante, já fizemos o traço todo dela com autoria da esperança.

A vida é tão louca que, mesmo a ciência gabaritada, ela só se permite se tiver que ser.

A vida é tão louca que agora, resta aguardar 14 dias pra ver se ela quis ficar e aparecer com o apelido de "beta positivo".

A vida é tão louca que, mesmo que não fique, vida ela ja é.

E loucos, somos nós.


(Relato de um dia de transferência de embrião após fertilização in vitro).

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Uma barra, por favor.

Se vc perguntar para uma criança, se ela qr paz interior ou um chocolate, decerto(é assim que escreve? Achei chic e apropriada essa palavra hahahahaha), ela escolheria o chocolate.
Se for um adulto, a primeira opção. E considere- se um ser espiritualmente elevado se vc não entendeu o porquê.
Só depois que a gente cresce, entende essas escolhas meio torta dos adultos.
(Tbm qm ve um chapeu no lugar de uma jiboia engolindo um elefante nao é la muito confiável mesmo, ja previu o Pequeno Principe).

O tempo traz consigo desafios, relacionamentos, cobranças, decepções, surpresas, conquistas, alegrias, tristezas, traumas. Nem sempre amadurecimento. Mas ok. E a gente vai se moldando no meio disso tudo. Fica cada vez mais difícil e por vezes, inevitável, que por dentro, sejamos um turbilhão de sentimentos, preocupações, cicatrizes. E tudo o que a gente almeja é paz. Não a ausência de guerra(que tbm desejamos, claro. Mas que nao vai existir enquanto nao houver essa outra). A paz por dentro.

A criança não sabe o que é paz interior simplesmente porque ela tem. A gente so sabe o que é quando ela nao existe.
Crianças só vivem. E vivem apenas o presente. O que importa é o aqui e o agora. A brincadeira de agora. O dever de agora. O que a gente vai fazer agora. Ela nao ta planejando muito o sabado que vem. A semana que vem. Ou quem encontrou hoje. Ela ta cem por cento no momento presente.

Os adultos não. Nunca estao aqui. Eles estao na reunião de amanha, no arrependimento da briga de ontem, na aula a ser apresentada semana que vem, na mensagem que o crush vai mandar a tarde. E o mais engracado que quando os momentos chegam, eles nao estao mais. Estao nos outros momentos la da frente ou presos la atrás. O tempo todo a gente migra entre o passado e o futuro. Entre arrependimento ou angustia e ansiedade ou expectativa.
E o mundo corre cada vez mais trazendo a falsa sensacao do presente, mas reafirmando essa alternancia entre 2 tempos. Que nao existem simplesmente.
Olha ao redor.
Vc sonhou com aquela viagem. Chegou nela e ta mais preocupado com as curtidas das fotos. Ou abriu o instagram e viu que fulano de tal ja fez essa e outras 345 viagens com fotos melhores. Vc nao ta na viagem.
Vc saiu do outro lado da cidade pra encontrar seu melhor amigo. Estão ambos olhando pro whatssapp falando com pessoas que não estão presentes. Nao estao mais ali.
Vc ta aqui, mas ta olhando a agenda de amanha. Nao ta aqui portanto.
Vc acorda pensando se o que fez ontem foi certo. Vc ficou preso lá.
Vc ta fazendo exercicio, mas ta pensando se não devia ter começado antes.

Vc é a versao do seu futuro em algum dia do passado. Algum momento sua vida, sonhou em estar aonde está exatamente. Mas quando esse momento chega, pobres de nós que continuamos a olhar pro futuro. E nunca reconhecemos que talvez, nosso presente seja nosso melhor presente (perdao pelo não trocadilho).

E a vida corre. Escorre. E quando vc vê, ja foi o encontro. Ja realizou seu sonho. Ja conheceu tanta gente legal. Ja aprendeu.
E simplesmente não percebeu. Porque focou em tudo o que não era seu.

Eu tenho medo real de deixar passar, sabe?
Por vezes eu parei, olhei ao redor e pensei "esse momento aqui eu esperei por tanto tempo e ta acontecendo. GENTE TA ACONTECENDO" Eu quis parar o tempo. Eu quis gritar pra todo mundo que seila, eu sabia que tava criando memórias ali. E eu sempre tenho a sensacao que todo o resto não se tocou disso. Pq é incrível, qd vc ta vivendo, para quem ta ao redor, é mais um dia. E se vc nao parar pra pensar, vai ser pra vc tb. Isso quando a gente sabe. Pq tem aqueles momentos vc nao tem ideia que se eternizarão.

Eu lembro muito bem de um dia que eu fui pegar o metrô no Canadá. Estava sozinha, indo pro centro e me veio uma felicidade de estar ali. Sozinha. Indo conhecer uma cidade nova. Superando meus medos. Falando com gente nova. Mostrando pra mim mesma que eu podia o que eu sonhasse. E me toquei que
estava no meu proprio sonho. Tava tudo bem. Tudo simplesmente bem. Eu queria chamar qlqr canadense aleatório/chines(o que e quase a mesma coisa hahahaha) e falar "vc sabia que esse momento aqui é tipo meu sonhoooo". Mas eu seria maluca e deportada. Porém, eu abri o celular na maior inocência e surgiu uma foto no instagram de uma menina que estava no seu 25o país. Com uma foto muito mais bonita. Uma roupa blogueirinha e dando dicas de sei la o que.
Eu subitamente me entristeci por estar feliz por tao "pouco". Olhei pra mim, com a mesma idade empolgada com algo que tanta gnt ja fez, no meu 1o país sozinha e 3o conhecido e meu casaco repetido. Olhei pra vida real . E a comparação veio com o sentimento de "será mesmo que eu sou maluca de estar tao realizada?".
Ai me toquei de novo. Se nao tivesse usado o celular, nao sairia do meu estado de realização. E cheguei a conclusao de que nunca, em nenhum momento, será melhor se vc se comparar. Sempre havera alguem mais viajado. Mais rico. Mais famoso. Mais realizado. Mais bem sucedido. Aparentemente.
E o que a gente pensa que é uma ferramenta ingenua de compartilhamento de fotos, vira instrumento de propagação de insegurança e baixa autoestima. E de impossibilidades. Considerando estima nao so o que e estetico, mas o que é pessoal e importante para cada um.
E a gente deixa, de novo, passar. Ja que nao é suficiente. Ja que vc nao percebeu que é sobre o seu presente. Deixa passar o momento. Passar a vida. E fica so com o passado e o futuro. Que no caso, nao existem.

Mas as crianças não. As criancas ensinam. Elas estão ali. Só ali. Se tao doentes, tao mal. Se melhoram, tão bem. Se choram, é doído. Se sorriem, é com vontade. Se for pra escolher, escolhem o chocolate. Pq viver no agora, é o momento que a gente sabe que pode fazer algo. O nosso melhor. E se a gente pode fazer algo, somem os sentimentos de ansiedade futura ou arrependimento passado. Como diria Renato Russo, nao sou mais tão crianca a ponto de saber tudo.
Desejo que possamos ser mais como elas. Agora. E o nosso agora merece ser mais doce.
Assim quem sabe, a gente consiga as 2 coisas. O chocolate e a paz de si mesmo.



domingo, 1 de setembro de 2019

Ilusão

Da onde vem o sentir?
Se vê e sente? Ou se sente e passar a ver?
Imagina e se apaixona ou se apaixona e passa a imaginar?
Se encontra e existe ou existe e passa a se encontrar?
Que a ordem dos produtos nao altere os fatores.
E o verso do vice.
E nessa sequência inconsequente a gente crê que, se faz sentir, existe em algum(qualquer) lugar.
Esperando a hora de ser real(idade). De ser, por fim, nós.


terça-feira, 27 de agosto de 2019

Você tem medo de que?


Sabe, ultimamente tenho pensado sobre o crescer. Sobre ser adulta. Quando eu era criança, via aquelas rodas de adulto e alguem sempre dizia "isso nao e assunto pra crianca" "estamos aqui falando coisas de adulto" "fique com as crianças ". E na minha pequenez de altura, imaginava sobre a grandeza de quem tinha mais idade.

Não sei se o mundo que mudou ou a gente que mudou no mundo.
Quando eu era pequena, os adultos pareciam importantes. Sérios. Maduros. As coisas pareciam simples. As regras eram claras. Brincou, guardou. Errou, pediu desculpa. Ganhou, agradeceu. O mundo podia ser qualquer coisa. Absolutamente qualquer coisa. O shampoo era microfone. O vhs era sofa da barbie. A rua era passarela. O quintal da minha vó era floricultura. E o dinheiro de mentirinha trazia uma dose de realidade capitalista a brincadeira. O mar era secundario, eu ia pra praia pensando nas muitas esculturas de areia. O carro era transporte pros desenhos das nuvens. A arvore era escalada do Everest.
Se eu não soubesse algo, meus pais sabiam. Se eu sentisse medo, eles desfaziam. Se eu gritasse, eles apareciam
Eu podia ser o que eu quisesse. Mas eu gostava mesmo de ser secretária. Achava o maximo atender telefone, mexer nos papeis, usar grampeador e falar "vou ver aqui na minha agenda". Eu tinha uma agenda. Achava chic. Ate perceber que nao adiantava marcar "escola " todos os dias. Nao entendia pq tinham agenda. Nao sabia que os adultos tinham tantos compromissos que tinham q anotar pra nao se perder. Descobri depois.
Eu gostava de colocar uma blusa de manga comprida na cabeca e fazia as mangas de cabelo. Eu sonhava em ter um cabelão e ficar jogando de um lado pro outro. Teve um dia que eu imitei meu pai e fui me barbear. A lamina travou na primeira passagem e eu descobri q alem de agua e sabão, aquilo so funcionava com pêlos. Mas era adulto. A gente imita(e chora depois obviamente).
Eu nao ligava muito pra minha roupa. Se eu quisesse usar o sapato novo, usava. As vezes gostava daquela calça beeem velhinha. Descobri que reparam até no fiozinho solto na parte das costas.
E qd eu vi q as meninas estavam largando as bonecas, comecei a usar meu primeiro sutiã. Era da pequena sereia. Achava adulto. Mas so tinha um sutiã. E nao era completamente desnecessário.
Eu nao ligava pro corpo. Nao sabia q tinha menina com perna mais grossa e mais fina. Que o peso tava acima de 1kg ou abaixo. Que o pé podia ser com os dedos muito separados ou nao. Eu não ligava até alguem reclamar do seu corpo. Passei a comparar o meu.
Eu nunca soube o quer ser quando crescer (pasme). E sei lá pq todo adulto tem essa mania besta de querer crescer a crianca. Deixa ela. Deixa ela querer ser o agora.
Ter brilho no olhar. Trazer cor no mundo.
Ser intensa. Mas aí, descobri que queria medicina. Na verdade, tava na hora de escolher. Eu nao descobri nada.
Crescer é passivo. Acontece quando vc menos espera. O que a gente não espera é tanta gente grande perdida. Descobri.
Adultos sao pessoas grandes, que encolheram suas almas de criança. A vida foi dolorosa por vezes e, cada um ao seu modo, foi colecionando cicatrizes. Foi se esculpindo pro bom. Ou pro ruim. E foi se afastando de quem era quando era pequeno.
" é assim mesmo". Eles disseram. "Para de ser bobo menino". Afirmaram. "O mundo não é cor de rosa". Desiludiram. Me vi no meio de tanta gente igual e ao mesmo tempo, diferente. Cada um usou seus momentos pra ser alguem melhor ou pior, mas nunca o mesmo. A vida é irrefreável.
As vezes acho que cresci. As vezes, acho que to crescendo. As vezes nao acho nada. Ora mulher. Ora menina.
Mas todo esse "processo" é, por vezes. Doloroso.
Nao falo de corpo. Mas de alma.
Meu pai sempre disse que o mundo é mau e injusto. Antes eu achava q era exagero. Mas cada dia que passa, eu reconheço sua sabedoria. "Filha, o mundo é ruim". O mundo é bem ruim. As pessoas não fazem as coisas como as crianças, pelo valor delas. As pessoas fazem as coisas pelo retorno. Tudo, absolutamente tudo, perde a graça e fica mecânico. O artista quer fama. Nao a arte. O cientista quer a publicação. Não a descoberta. O engenheiro quer um contrato. Não a construção O médico quer ir embora do plantão. Nao o cuidado com o pacientes. O funcionário publico quer aposentar. E assim por diante. Em algum momento, alguem até quis o sentido daquela profissão. Algum momento mais perto da sua criança.
Todo mundo quer chegar em casa. Todo mundo merece chegar em casa. A maioria na verdade acorda ja pensando em voltar pra casa. Que ciclo infinitamente chato.
Se tem uma injustiça, vc pode processar, mas sabe que vai ter que aguentar as consequências. Vc se cala.
Se tem um erro, vc pode consertar, mas sabe que o trabalho e todo seu. Vc se aquieta.
Se tem um elogio, pode ser politicagem. Vc desconfia.
Aaah, política. As relações todas entre as pessoas, como diz Paulo Coelho, sao com o "banco dos favores". Nada é gratuito. Tudo será cobrado. Pouco e verdadeiro.
E.a gente vai ficando pequeniniiiinho em valor.
É chic ter prestígio. É chic rir dos outros. É chic transar e sair de manha. É chic ter muitos contatinhos. É chic odiar. É chic ter muitos seguidores na rede social. É chic tirar foto falsa. É chic não dormir. É chic trabalhar 72h seguidas. É chic.
Brega é ser simples. É andar de pé no chão. É defender alguém que precisa. É brega ter responsabilidade emocional. É brega nao ter rede social ou tirar pouca foto pq valia mais a pena curtir o momento. É brega ter saude mental. O que vale é parecer ter. Mesmo que seja implodindo por dentro.
E assim, a gente vai sobre - vivendo nesse caos de gente cansada. Decepcionada. Apagada.
Eu testemunho, diariamente, pessoas cada vez mais doentes. Cada vez mais violentadas por outros e por si mesmas. E um mundo cada vez mais perfeito dentro da internet.
Eu nao sei se é o mundo que mudou tanto ou se eu que mudei no mundo.
Não sei se é o meu mundo. Só sei que, apesar de não ser um momento de crise, algo não vai bem.
É difícil sustentar no interno, o que não existe no externo. Mas me da medo. De nao ser e de nao viver com um olhar de menina.
Perde a cor. Perde a graça. E perde a pena. Explico. Um coração que equilibrava com uma pena(em algum seculo muito muito passado ou alguma mitologia), era um bom coração. Leve. Ai surgiu a expressão. E eu tenho esse medo. De não valer uma pena. Igual um coracao de crianca.
Talvez o grande desafio de amadurecer seja esse: valer uma pena ainda que insistam nas pedras.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Parada

Tem mil coisas na minha cabeça. São tantas que mal consigo organiza-las num fluxo único de pensamentos. Tem mil coisas no meu coração. São tantas que eu nem sei direito o que sentir. São tantas coisas borbulhando freneticamente dentro de mim que, qualquer conversa esporádica não da conta de mim mesma. Parece que as coisas não fazem sentido, ou fazem menos sentido, ou então, perdem o brilho quando a gente fala. Não sei se eu sou uma má narradora, ou se as pessoas são más ouvintes ou se é uma questão de limitação dasconversas mesmo. Acredito fortemente nessa hipótese: de que é uma limitação das conversas cotidianas. Ela não conseguem abranger a grandeza das coisas que borbulham dentro da gente as vezes. Parece que falar torna tudo mais real e as vezes, a gente precisa de menos realidade e mais poesia. Entendo os poetas, sabe? Eles encontraram uma forma mais fidedigna de expor o que berra dentro de nós. E, apesar de não ser poeta, as palavras escritas organizam melhor meus sentimentos, minhas ideias. Ou, mais do que isso, me livram um pouco delas. É pesado carregar coisas que cabem em uma folha de papel em branco.

Bom, eu fui a missa domingo e pedi para Deus fazer dessa semana, a vontade Dele. De verdade. Eu frequentemente peço para Deus fazer o que Ele quiser, porque acredito nos planos Dele pra mim. É óbvio que quando a nossa vontade é a mesma é ótimo. Mas quando isso não acontece, prefiro que a Dele prevaleça. É preciso uma dose de coragem para isso ou de falta de noção. Mas acho que parte dessa vida, as nossas escolhas são porque a gente não tem real noção. Muito mais do que por excesso de coragem.

Mais um dia de plantão no CTI e, como todo dia de plantão, já pensava em voltar para casa e em como aquele seria mais um dia, apenas. Estávamos passando todos os pacientes logo pela manhã e dividindo quem ficaria com quem. "Então, todo mundo já sabe que esse paciente aqui é super grave" "A Lia queria ficar com ele" disse a outra acadêmica. Já tinha comentado com ela que queria ele, afinal, a gente acaba aprendendo mais com o paciente mais grave. Tudo bem! Fica no quadro marcado que o verei e continuamos dividindo o restante dos pacientes até que alguém grita do corredor "paciente do leito 21 tá batendo a 20".

SAI. TO.DO. MUN.DO. COR.REN.DO. Paraoleito21.
Os médicos correm. As enfermeiras correm. Puxa o carrinho. Pega adrenalina. Alguem cronometra, por favor. Quem vai revezar a massagem? Pega o ambu. Pega o outro ambu. Cade a adrenalina? Chama a fulana. O que ta acontecendo? Ah, ele parou. Tá em assistolia. Continua a massagem. 2 minutos, troca. Falta oxigenio? É tep? Infartou? Ele tava bem ontem. Ele tava? Tava. A gaso dele de manhã é boa. Troca a massagem. Adrenalina. Mais devagar. Mais rápido. Pera, checa o pulso. Epa. Calma. Ritmo bagunçado. Organizou. Sinusal no monitor. Opa. Voltou Gente.Ufa. Pega o USG. Não tem pneumotórax. Tá aquecido. E agora a gente pode... Parou de novo! Massagem, cronometro, adrenalina. Posso massagear? Pode. Vai, troca. Reveza. Mais uma ampola. Voltou? Não. A gente vai continuar até quando?
Silêncio.
Massagem, adrenalina, sem ritmo. Linha reta.
Último ciclo. Adrenalina.
Já foram quantos minutos?
40.
Que horas são? 9:41h.
...

A vida foi. A vida já tinha ido. E nossos esforços não foram em vão. Foram nosso próprio suporte. De que tinha algo há fazer. Mas dizem por aí "ele não resistiu" ou a vida tem seu próprio tempo e a Medicina seus próprios limites. 35 anos. Passou por esse mundo por 35 anos e se foi ali, na frustração de uma equipe capacitada que não se acostuma com a morte, mesmo lidando com ela rotineiramente. A vida tem prazo, mas é universal acreditarmos que ele beira os 100 anos (ou ultrapassa isso). E quem foge disso é a exceção. Esqueceram de contar pra gente, ou a gente não quer aceitar que a gente tem prazo sim, mas não são 100 anos. E que a regra é nao chegar até eles. Cada um tem o seu prazo e o grande mistério da vida é justamente não saber quando ela termina. A Medicina tem isso de acreditar que perdeu os anos vividos ou a sobrevida. Ou que ganhou. A verdade é que a gente não sabe de nada mesmo. Cria-se guidelines, procotolos, estudos, estudos e mais estudos. Mas a hora, 9:41, é inevitável. A gente, literalmente, sua para retardá-la. Mas as vezes a grande sabedoria é saber a hora de aceitá-la.
Eu vi uma equipe abalada. Como uma perda da batalha. Esforços em vão. Fiz tanto para tão pouco. E nosso heroísmo? E nossas vidas salvas? Mas como diz o poeta, mais vale uma derrota do que 100 batalhas ganhas. E, será mesmo que é derrota? São nossos planos. E os planos Dele. E nossa falta de compreensão.
Pode parecer um tipo de tortura, mas fiquei ali do lado parada, imaginando quem seria aquela pessoa. E como ela era sem os canos, os tubos, os acessos, sem a doença. Imaginei. Fui olhar suas informações médicas no prontuário e achei a foto da sua RG. Ele era bem diferente. A vida tem uma cor que a gente reconhece apenas quando sabe a cor da doença. Ou do fim da vida. A vida brilha diferente em cada um de nós e eu agora sabia qual era sua cor. Seu nome. Sua família. Sua esposa estava vindo com sua mãe. E teriam uma das piores notícias da vida delas. Não era eu que daria, mas em poucos meses, será. E acho que essa é uma das partes mais difíceis da Medicina: se a notícia ruim tem uma cara, essa é a nossa cara. E mesmo que não seja uma derrota pessoal, soa como se fosse. Nós perdemos. Vocês perderam. Todos nós perdemos. Mas sentimos de maneira diferente. Me afeta. E, por mais que pareça tortura querer ver a reação da família, acho que é isso que me atrai. O afeto. Enquanto me afeta, eu me sinto viva. Por dentro, um turbilhão de coisas. Por fora, vida que segue. Há muitos outros a cuidar. Pode parecer tortura, mas é só medo mesmo.
Medo de endurecer. Medo de ficar indiferente. Medo de errar. Medo de ser responsável. Medo de crescer. Medo de ser médica. De falar. De ouvir. Entre tantos medos, dá medo até de desistir.
A gente fala pouco sobre isso. Parece que falar sobre medo nos inferioriza. O mundo é dos ousados, dos corajosos, de quem vai sem olhar para atrás. Não há tempo para se olhar para atrás.
Mas ele está ali. O medo.Ora sendo a atenção redobrada para que tudo caminhe no seu espaço. Ora motor, impulsionando mesmo que presente. Ora paralisando. Nem que seja paralisando no sentido de parar e fazer pensar. Pensar que a vida voa! E que tudo pode acabar como surgiu: uma notícia.

Que vida louca! Sabe, as vezes eu lembro que escolhi Medicina pela sua intensidade: a vida e a morte tão pertinhos tornam o nosso próprio jeito de viver a vida mais intenso. E afeta a vida dos outros de maneira intensa. Mas as vezes, me esqueço. De verdade. Me pergunto se me falta noção suficiente para escolher ser médica. Meu Deus! Somos todos um bando de malucos achando que sabemos alguma coisa, quando na verdade, estamos todos perdidos tentando todos os dias dar nosso melhor, sentindo todos os dias que nunca saberemos o suficiente, achando que os protocolos nos respaldam, quando na verdade, a gente não tem ideia do que pode acontecer. A medicina é imprevisível porque trata de vida. E que linda metalinguagem, nós, seres vivos, tratarmos dela. A vida. Que nós mesmos vivemos. Nada mais imprevisível que a vida. vida e medicina se confundem de uma maneira tão assustadora quanto extraordinária. Mas hoje, particularmente, foram daqueles dias mais assustadores.

A tarde, quando o plantão voltou a rotina, eu e a outra acadêmica ficamos conversando com o médico sobre como foram seus primeiros plantões. E ele me ensinou muito mais do que os eletrocardiogramas que ficamos estudando. Me ensinou sobre a diferença do ferro e do aço. O ferro é duro, mas quebrável. O aço é mais resistente e maleável. Grandes coisas são feitas com o aço! E a grande diferença entre eles são 2% de carbono. Que para se tornar aço, junto com o ferro, passa por um processo de aquecimento, pancadas e alta resistencia. A grande diferença entre nós, pequenos ainda, jovens, inseguros e assustados para a de médicos calmos, admirados e reconhecidos, é o processo. É a experiência. As pancadas. Os erros. É a vida. A mesma que a gente cuida. Ela, tão imprevisível quanto extraordinária, acontece.
Que, acima de tudo, a gente aprenda com o que ela ensina. A vida e a Medicina. Que acontece. E ensina. E erra. E acerta.
E, se atrás de todo erro, vierem muitos acertos, que tenhamos a serenidade de continuar. Que eu tenha a serenidade de continuar. Por que isso tudo é muito maluco.

Depois de conversarmos, continuei a rotina do fim da tarde. Até que vi uma amiga entrar. A acadêmica que deu plantão semana retrasada comigo, formou semana passada e hoje, era seu primeiro plantão. Abracei-a desejando que desse tudo certo. Só a gente sabe o medo que a gente compartilha. Ela transparecia nos olhos a empolgação de quem acabou de pegar o CRM e o medo da responsabilidade que a abraça. E vendo a acadêmica de ontem, hoje médica plantonista, pensei de novo. Como a vida é maluca.

Em um dia só, eu vi seu fim. Seu percurso. Suas mudanças. Vi o novo e o velho. E, no meio de tudo isso, entrei em outros leitos os quais a vida continua. Sem nem fazer ideia do que se passava ao lado.
Como diria Guimarães Rosa: "...A vida é assim, esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem"
Talvez coragem não seja a ausência de medo. Talvez coragem seja ir com ele mesmo. Mas ir, acima de tudo. Para frente, para cima, pro lado, para o fim, para o início, para o recomeço. Para o erro e para o acerto. Que vá. E que valha a pena. Sempre.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

linha reta


Deve ser normal.

Tem dias que a gente desanima mesmo, com vontade.
Parece que todas as soluções desaparecem e só tem problemas circulantes .
Tem dias que a tristeza entra e puxa uma cadeira. Parece que vai ficar.
Nem foi convidada, mas tristeza é assim. Entra sem pedir licença e vai embora quando quer.
(Ou quando você fizer muito esforço pra expulsa-la e ainda assim, ela pode resistir).

Tem dias que são mais difíceis mesmo.
Que a gente encarece o sorriso e barateia o olhar caído.
Que resolve colocar os desafios num saco só, olhar pra eles e dizer, "ah não. Tudo impossível".
Que a gente perde a noção, o raciocínio e a serenidade.

Tem dias que dói, que extravasa, que enfurece.
Tem dias que esconde, foge, desaparece.

Nesses dias,
Respira. Se protege.
Chora baixinho.
Se cobre, fecha o olho e torce para que amanhã seja melhor.



domingo, 29 de novembro de 2015

Quando decidimos ir

7:00, sábado, dia 28/11
Cheguei no plantão.

A semana tinha sido cansativa, a sexta feira exaustiva e a noite mal dormida. Os pacientes eram mais ou menos os mesmos e, como já aconteceu outras vezes, pensei e torci para que me restasse tempo pra dormir. Mas Deus tem planos diferentes dos nossos...

De manhã, enquanto conversávamos com o plantonista, a anestesista veio nos perguntar da paciente Jucelina. Ela estava hipotensa, em regular estado geral, o que aconteceu?
Fomos até ela. Frequência cardíaca baixa, hipotensão, saturação de oxigênio ruim.
Percebeu?
É, percebi. Percebi que o dia seria cheio... Estávamos ali pra isso.
Colhe gaso, sorteia quem vai fazer a punção e a intubação. Olha o monitor. Colhe outra gasometria. Chama o fisioterapeuta respiratório. Fica de olho. Já volto. E agora? Diurese. Não urina. Pressão. Sedação. Fentanil. Nora. Midazolam. Soro fisiológico. Outro soro. Saturação 80. Ambu. Intuba. Aspira. Agora vai. Ventilação. FiO2. Saturação 98 .Pressão 110. Gaso. Estabiliza. Vamos, vozinha.

E agora?
Escreve, anota, descreve, narra. Prontuário atualizado.
Enquanto cuidávamos dela, pensei na sua história. Mora sozinha, recebe ajuda dos vizinhos, magrinha. Sem visitas. E e aí, a gente fica triste. Pela história. E sente mais vontade de ajudar. Para ela se ajudar. Vamos vozinha, vamos que ainda não acabou por aqui.
Ela estabilizou.
Vamos ver os outros pacientes.
Fui evoluir. Escolhi a dona Mercedes. Estava grave também, do lado da dona Jucelina. Tinha o rosto coberto de feridas de bolhas e curativos por todo corpo. Não tinha mais sua forma, mas tinha os olhos. Estava com tubos, acessos, monitores. Além de todas as informações que eles nos trazem, fui buscar informações nela mesmo: tocá-la, ouvi-lá, senti-lá. Será que ela ta muito ou pouco sedada? Dona Mercedes? DONAAA MERCEEEEDES? Ela abriu bem pouquinhos os olhos, estavam pesados demais. Olhou pra mim por menos de 10 segundos. Chamei de novo. Abriu com dificuldade. TA COM DOR? Fez, sutilmente, que não. E foi no intervalo pequeno de tempo que os olhos insistem em fechar. Logo fechou. Sedada. Mas nem tanto. Auscultei. Pulmão, Roooonnn. Roncos. Coração. Tum. Ta. Tum. Ta. Tum. Ta. Barriga. brrummmbruummm. Panturrilhas sem alterações. Pulsos periféricos presentes.
Evolui: 8º dia de internação. Antibióticos, punção. pressão. Nas últimas 24h? Estável. Voltei, esqueci de anotar os parâmetros de ventilação.
Era hora da visita. Uma mulher estava sentada ao lado dela. Cabelos pretos, pele morena, olhar triste. Pegava na mão e, mesmo que dona Mercedes não a olhasse, ela estava ali. Pensei quem seria aquela mulher que conseguia ver a paciente para além de tantos tubos e curativos. Peguei as medidas e saí. Só falei boa tarde. Às vezes, acho que a gente precisa respeitar em silêncio a grandeza de certos momentos.

Acabei de anotar no prontuário e voltei a ver a dona Jucelina. No meio do corredor, encontrei a mesma mulher. Cadê o médico? Ali. Gostaria de saber da minha mãe. Hum, então a senhora é filha.
Olha, ela está estável, mas vou ver com a minha acadêmica como ela passou de ontem pra hoje. Lia? Oi! Então, ela trocou o esquema de antibiótico de ontem pra hoje, laboratório está bom. Então, estável. "Ah que bom! Muito obrigada viu? Muito obrigada por cuidarem tão bem da minha mãe".
Mãe. Sabe que a parte mais difícil da Medicina não é não dormir, não é o plantão , não é estudar horas, não é abrir mão da família e dos amigos. A parte mais difícil é quando a visita de um paciente grave, parecido com os outros, sem muita individualidade, te lembra pelo olhar preocupado que aquela pessoa é muito importante. Você pode não a conhecer, não saber como são seus traços, mas eu sei. E agradeço por cuidarem dela. Nessa hora, a gente lembra que a história daquele paciente começa antes do D1 de internação. Começa na identificação, data de nascimento.
Entristeci. Dona Mercedes estava fazendo falta. Era outra história triste. Estava realmente bem cuidada e posso garantir por ver o serviço tão de perto e participar dele. Voltei a dona Jucelina, era ela quem precisava das nossas preocupações naquele momento. E estava estável também.
E eu achei que o plantão da noite e da madrugada seriam tranquilos.

Dormi.
Domingo, 29/11/2015
6:00h "Meninas, paciente ta parando".
Acordei, coloquei o óculos e o sapato e levantei. Aproveitei esses segundos para continuar acordando. Enquanto andava até a última enfermaria, a de pacientes graves, fui acordando e pedindo para dona Jucelina não desistir.
Mas quando entrei na enfermaria de dois leitos. Não fui até o segundo, da Dona Jucelina. Parei no primeiro.
O médico já estava na escada do lado do leito em posição de massagem e olhava para o monitor. O enfermeiro cuidava da respiração. A outra enfermeira pegava adrenalina no carrinho de parada. E eu fiquei perto dos pés da dona Mercedes, olhando o monitor e rezando e preocupada com números tão baixos de pressão e frequências.
Não havia desespero, não havia pressa. Havia foco, determinação, raciocínio. Sabiam o que deviam fazer, juntamos- nos para ser uma coisa só e torcer para uma coisa só. O médico olhou o relógio.

Massagem. massagem. ambu. ambu. adrenalina 2 ml. Massagem. Massagem. Massagem. Massagem. Respiração. Respiração. Respiração. Massagem, Massagem, Massamge. Adrenalina 3 ml. Reveza a massagem.
Eu fui. Estava calma, Preocupada, mas conseguia pensar com clareza em toda a técnica. Todo o peso do tronco, esterno, frequencia de 100, 90 graus com o paciente, profundidade de 5-6 cm. Vamos Dona Mercedes, vamos!
Cansei. Troca. Massagem, massagem, massagem, respiração. Troca
Fui de novo, pensei na massagem, no monitor e aí, resolvi olha-lá. Enquanto jogava meu peso na maior esperança que o seu coração resolvesse funcionar sozinho, olhei. Ela tinha os olhos abertos e agora, arregalados. Diferente do que eu tinha visto mais ontem. Brilhavam talvez pelo reflexo da luz, mas não estavam ali. Senti. Senti que não era um tórax. Não era um osso, um coração e um monitor. Era uma pessoa. E a massagem nã foi boa durante esses segundos. talvez 2 segundos. "Não vou olhar de novo, não posso. Lia, olha só pra sua mão porque você precisa fazer direito. Porque vai funcionar. Porque ela vai voltar". E voltei a racionalizar, precisava ser efetivo. Foi. Foi tecnicamente, mas não tava mais funcionando. Talvez ela já tivesse ido, há algum tempo. Razão, as vezes, é o melhor caminho do cuidado.
Reveza. Vamos! Pai nosso que estais no céu!Massagem. Massagem. Massagem. Mais 10 minutos e desistimos. O coração não batia mais, O pulmão não fazia nada sozinho. Já faziam 30 minutos. É....

6:30 da manhã. Hora do óbito.

Ela foi antes talvez. Ninguém sabe. A medicina diz sobre o corpo, mas ninguém sabe o momento em que deixamos esse mundo, em que nossos olhos brilham só pelo reflexo da luz mas sem vida, em que nosso coração bate só por uma atividade elétrica qualquer e deixa de carregar nossos amores, nosso pulmão não mais carrega o ar do lugar que estamos, mas só aquele que jogamos pra dentro dele com pressão positiva de uma máquina. Ninguém sabe quando nossa história vai terminar com um atestado de óbito no prontuário. Ninguém sabe. O que a gente sabe é que não termina na memória de quem nos ama. A história não termina na ligação pro familiar. Nem no enterro. Talvez nunca termine, talvez sejamos eternos. Ou talvez, já terminou e a gente continua ali, ligados aos tubos e monitores, sem que ninguém lembre da gente.

Duas mulheres, uma do lado da outra.
Duas histórias diferentes.
Tubos, curativos, remédios e monitores iguais.
O nome de uma delas sai do quadro de internação. Passei o dedo em "Mercedes" para saberem que não eram mais 8, agora eram 7 internados. E alguns documentos de óbito a preencher.
Não se sabe o motivo. Sua história médica ainda estava sendo investigada, ela não era a mais grave do plantão e todo o possível estava sendo feito.
Mas a medicina não explica tudo, porque é sobre a vida. E a vida não segue protocolo. A vida só se faz e desfaz. Deixa interrogações em quem a vê partir. E em quem fica e a gente achou que não ia ficar. A gente estuda por tantos anos, todos os dias, para entender como as doenças funcionam e levam a morte. Em como tratá-las e como agir quando o coração para.
E mesmo assim, não se sabe a hora. Nem o porquê. Nem em quem. Porque eu, não você. Porque ela, não a outra. Porque aquela e não aquele.
Ninguém sabe nem nunca vamos saber. Ela estava com o que era necessário, com o que devia ser feito. E foi mesmo assim. Mesmo que ninguém esperasse.
Deixei meu nome no seu prontuário. E ela deixou seu olhar na minha memória.
Talvez ela não tenha ido.

Vai com Deus, dona Mercedes. Mesmo que eu não conheça sua história de vida, seus anseios, seus sonhos e decepções. Mesmo que eu não saiba a forma do seu rosto. Espero que esteja em paz. E que não desistimos de você. Nem sabemos a hora da sua morte. Nem quando você foi. Mas saiba que, em mim, você vai permanecer. Obrigada por me permitir me tornar mais médica e mais humana.

Cheguei em casa e tinha um presente na minha mesa. Era um rosário.
Deus realmente tem outros planos. E sempre cuida de cada um deles.


(O nome das pacientes foi alterado para preserva-las)