domingo, 15 de novembro de 2020

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 15 de novembro de 2020.

Domingo.
Dia de eleição.
Ultimo dia de férias.
Ano de pandemia.
Mas nao é das eleições que eu quero falar. Nem do domingo. Nem da pandemia. É sobre as férias.
Meus planos iniciais eram ir pra Portugal em outubro. Depois de ja ter feito eletivo em São Paulo no meio do ano. Meus planos iniciais eram estudar muito. Muito e em serviços diferentes. Planos e alguma ingenuidade sobre o não controle dessa vida.
Mas o mundo mudou em 2020 e todos os planos tiveram que ser refeitos. Meus. Seus. Nossos.
E por algum motivo que eu acredito ser Divino, estou aqui.
Nao fui pra Portugal. Não fiz o eletivo que eu planejei em São Paulo. Nao tirei ferias no meio do ano. Não conheci varios servicos. Nao estou mais cheia de certezas.
Mas recebi mais. Foram 45 dias.
Uma viagem pro Jalapão. Que poderia ter sido "só " uma viagem. Mas foi uma terapia. Uma catarse. Uma fábrica de memórias e sensações que as vezes, ainda me pego pensando, se superei. Acho que não.
A gente faz planos. Mas Deus faz melhor e depois de muitos anos, eu Fe e Mi comprovamos o que ja imaginávamos: que a gente foi feita pra viajar. Pro mato.
E que mato. Ou seria casa?
Talvez o grande segredo da vida seja esse: ser nossa essencia na rotina tanto quanto se é na sua verdadeira casa. Leve. Feliz. Autêntico.
São Paulo veio com estudos. E ingênua eu achar que seria só estudo. Foi companhia. Foi amor. Porque o mesmo Deus que permitiu o mato, me trouxe um parceiro de vida pra uma viagem transformadora. Foi amizade. Foi dúvida, foi reflexão, foi e ainda é e talvez seja, mudança. Mas nao dessas de fora. Essas de dentro.
Esse dia sorrateiro que chega como quem nao quer nada e deixa aquele pensamento sutil que cresce e vira incomodo de quem está prestes a voar.
E dá medo. Medo de cair. De quebrar as asas. De não saber voar. Mas nao da pra viver incomodada nessa vida. E são paulo trouxe incômodo, daqueles que te fazem sair correndo. Sair do lugar. Pra qualquer lugar.
Veio Búzios.
"A cabeça cheia de problemas". Buzios foi afago pra mente. Foi paz. Foi sintonia. Foi descanso. Foi parceria.
O Rio foi reflexão. Conflito. Decisão. Realidade. E ainda há muito pra ser.
Rio é rotina. É o fluxo necessário da vida. O chão. O caminho. A responsabilidade. O compromisso.
E cá estou eu. Depois desses 45 dias intensos. Memoráveis. Inesquecíveis. Transformadores. Bem vividos.
Trouxe algumas certezas. Muitas dúvidas.
Mas tudo bem.
Dizem que a vida é isso.
Fluxo. Roda. Caminhada. Movimento. Ora sim ora não. Ora espinho, ora flor. Ora folha. Ora arvore.
Que bom.
Estar viva.
Que siga. Como deve ser.
Que seja o que viver e haja o que houver.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

18.10

 A vida é um sopro. Ou de varios sopros se da a vida.

Vivemos no intervalo de um inspiracao e outra expiração. Intercalados por taqui e bradipneias, dispneias e suspiros.
Vivemos. Entre tropeços. Corridas. E pausas. E talvez, numa bela tarde chuvosa, a gente se olhe por fora. Pra notar que mais corremos que vivemos. E por vezes, competimos. Só nao sabemos ao certo com quem. Competimos essa batalha ja perdida. Ou ganha? Sabemos o fim. Por que saber o fim nao pode ser um trunfo, inves de uma derrota?
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A medicina me irrita por tantas vezes. Me consome. Me entristece. Me cobra. Me leva a exaustão. Me afasta. Me interroga. Me faz me perder de mim.
A medicina me faz chorar. De dor. De medo. De ansiedade. De cansaço. De alegria. De superação. De conquista.
Nao sei se, entre uma respiração e outra, eu escolhi ou fui escolhida.
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"Por que medicina?"
Me indagam. E minha resposta mais sincera talvez seja: nao sei mais.
Ja vi seu lado mais bonito. E mais feio. Suas podridoes. E seu heroísmo. Ela transforma, arrebate, imerge. Quando acha ja te pediu tudo, te exige mais. E quando acha que vai exigir, te alivia.
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Eu lembro, em algum pensamento remoto de uma Lia bem mais nova, que eu queria fazer algo que fizesse muita diferença no que eu achava que mais era importante no mundo. A vida do próximo.
Eu podia nao ser boa nos esportes, na musica, na arte, nos relacionamentos, na Historia, na Geografia e na matemática. Podia ser timida, a ultima da fila, a mais caxias, a menos habilidosa. Mas queria fazer alguma diferença. Seja la o que acontecesse, pelo menos aquela pessoa saiu melhor por mim. Aquele mundo todo. Dela. E aí valeria a pena.
Enxergava o mundo todo como varios mini mundos de cada um. Nunca fui de grande multidões. Prefiro as individualidades.
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No percurso, descobri suas outras faces. A exaustão, o romantismo, a hipocrisia, a mercantilização. Me perdi algumas vezes me sentindo ruim. Pessoa ruim. Medica ruim. Mulher ruim. Tocar "a alma humana " parecia mais frase de formatura clichê do que vivência real.
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Mas a medicina tem disso. Parece que traz um pico em seguida ao nadir. Parece a vida mesmo. Traz momentos de olho no olho. De confianca. De "obrigada dra, eu consegui". De confissões. De alívio. De gratidão. De recompensa.
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Ser médica é só uma das minhas múltiplas partes. Nem sempre a mais bonita, mas certamente uma que me transforma diariamente. Ocupa muitas das minhas respirações. Isso quando nas as acelera ou as interrompe. Me faz enxergar, acima de qlqr outra coisa, que a vida é um instante. Vendo tantos deles se desenrolarem à minha frente, eu aprendo, todo dia, o valor de viver. De diferentes perspectivas.
Respeito e tenho a ciência como parte fundamental do meu trabalho. Nossa responsabilidade nao é poética. Nosso saber é limitado. Mas rezo para que toda vez que eu me perder na frieza dos livros e da rotina, saiba o caminho de volta. Quantas vezes forem necessárias.
Afinal. Nao ha felicidade sem completude. E nao há completude sem amor.

Cores do cerrado

 Fomos 3. Eu, Mi e Fe. Ja nem me lembro mais há quantos anos a gente idealiza uma viagem, um mochilao, uma fuga.

Eu acredito no tempo certo das coisas. Na fluidez de energia. Nos planos de Deus. E te falar, continuo me surpreendendo, mesmo acreditando. Por que a gente torce pra ser bom, mas tem coisa que supera completamente nossas expectativas. Daqueles momentos que a realidade fica melhor do que qualquer sonho. E a vida mostra seu sentido. Sua intensidade. Sua vibração mais genuína.
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Dia 4 de outubro saimos de chapeu de palha, botas de trilha, biquínis e maios e uma mala de mao pra 7 dias. Ninguém tinha colocado os pés no Norte do País, nao conhecíamos ninguem no Estado mais caçula da Federação. Mas fomos de coração aberto, sorriso largo e vontade de viver. Quando eu olhava pro lado, cruzava com duas almas que brilhavam. Simples e lindas. Parceiras e reflexivas. Amadoras na blogueiragem e profissionais na capacidade de cativar.
E cativamos. E nos deixamos cativar.
Sábio Pequeno Príncipe que ja dizia: "cativar significa criar lacos"
Bom, difícil dizer quais os laços mais fortes.
Se foram entre nós mesmos e a parte de nós que se esconde na loucura da rotina e emerge com mais vontade que a agua de um Fervedouro quando nos dispomos a sermos essencia. Dizem que ninguém volta igual de uma viagem. E aquelas terras tocantinenses sabem disso.
Nao sei se os lacos mais fortes foram entre nós 3, eu mireeeelle e fefe que nos vimos em situações inéditas e só confirmamos que nossa sintonia aumenta com o tempo e com o mato.
Se foi com ele, o mato. Ou ela, a natureza. Que é e sempre será nossa casa. Mas com frequência esquecemos disso e a maltratamos. O Jalapao é um paraíso esquecido. Paraíso porque é lindo. Lindo me parece uma palavra pequena demais pro que é aquele lugar. Mas acho que ele nao cabe em nenhuma palavra. Seu cerrado colore o ceu, o chao e as aguas. E quantas aguas! Seja rio, cachoeira ou fervedouro. Todas cristalinas e coloridas. Refletem seus arredores. Azul. Verde. Branco. Laranja. O proprio arco íris pintado por um Verdadeiro Artista.
Paraiso porque é lindo. E esquecido porque nao é muito visto por nossos governantes. Cuidado apenas pelos quilombolas. Achei estranho no início pra depois concluir que talvez seja melhor assim. Continuar esquecido por quem degrada e lembrado por quem respeita e entende que a propria natureza se cuida. É só a gente nao interferir que ela faz seu trabalho. E que trabalho!
Não sei qual laço foi mais forte.
Se foram entre as pessoas.
Entre nós e o Rui. Que de moleque estereótipo heterotopzera virou nosso tocantinense com sotaque paulistano (meeeeu) contador de piada sem graça, cantor ruim mas ecletico no estilo musical e forrozeiro que faz sarrada no volante e virou amigo inesquecível.
Entre nós e Mineirim, com seu jeito peculiar de contar historia e zuar da nossa cara quaaase fazendo nos nao perceber que por tras de tanta brincadeira, ele tava preocupado e cuidando de todo mundo.
Entre nós e os tocantinenses. Povo gente bonissima. Com um sotaque nem nordestino nem goiano nem caipira mas tudo isso junto. Cantado com jeito nortista. Vini com a melhor historia de como conheceu o Rio de Janeiro fez com que trocassemos o fervedouro pela melhor prosa embaixo da arvore e cheia de simplicidade e expressões peculiares. Aprendemos o que é moco. Incendiozinho. Chuveiro quadraaado. Mulher com coxa pé de manga. Que o buriti se arrocha. E o cheiro se manda pra quem vc cativa.
Thiaguinho passou rapido, mas o suficiente pra encantar com sua simplicidade elegante e olhar puro.
Nao sei se foi Jane, se foi o dono do Buriti, o Branquinho melhor cozinheiro de bolo de maracuja, a cozinheira de ponte Alta ou de Mateiros. Nao sei se foi o vendedor de sorvete de Buriti, Cagaita ou Bruto(os quais ainda sigo com dificuldade de identificar ehehheheheh).
Nao sei se foi os Vida ou o instagrammer anestesista amigo do Alok. Que começaram tímidos mas logo se renderam as "3 patetas". Se fecha ô paraqueda!
Se o laço foi comigo, com elas, com o lugar ou as pessoas.
Ou se foi simplesmente com o vento na cara ouvindo musica alta numa 4x4 na estrada com a terra que me cobriu por inteira. E nos fez gargalhar e ainda fara por muitos momentos em que estaremos em nossas rotinas sem uma a outra pra compartilhar. Vai virar aquela risada aleatória do "ta rindo do que?" "Nada nao lembrei de uma coisa".
Nao sei mesmo.
Se foi a Mi dancando que nem uma colher, a Fernanda fingindo que nao tinha medo do grilo mutante no meu cabelo, o Rui guiando numa travessia no Rio tipo globo reporter ou falando e ai? Leeticia? ou toda a comida caseira bem temperada que comemos.
O que eu sei é que o coracao ta apertado.
Talvez de saudade. Talvez de tristeza. Talvez de nostalgia. Mas certamente grato.
Foram 7 dias em Tocantins.
5 no Jalapao.
1 na Ilha da da Canela.
E outro a mais de 150 metros de altura a 60km/h numa tirolesa.
Que viagem! Que memória!
So tenho a agradecer.
Obrigada meu Deus, por tamanha generosidade.
Pela viagem. Pelas pessoas. Pelos lugares e pelas companhias.
Obrigada por me juntar com outras 2 meninas- mulheres que sabem que a vida boa mesmo é de pé no chao, vento na cara e cabelo molhado de rio.
Obrigada Cerrado, pelos amanheceres e entardeceres alarajandos mais bonitos que ja vi.
"Eu gosto do Por do sol. Vamos ver um?".
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Seguimos "cariocas", mas agora com amigos nortista, memórias tocantinenses, um pouco mais morenas e com o coração mais cheio.
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Obrigada, meu Deus, por me lembrar que pra ser feliz é disso que a gente precisa : pessoas que saibam o que importa na vida e nossa casa-mato de cenário. O resto, é história que vira memoria. Refúgio nosso de cada dia.
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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Pra onde quer que você vá

26 de abril de 2020
18:53h
Último atendimento do plantão:
Entra uma menina de 20 anos, cabelos cacheados, magrinha, fala mansa, postura calma, máscara colorida, acompanhada do namorado.
-Boa noite, meu nome é Lia, sou médica do plantão, como posso te ajudar?
-(Queixa x y z)...dra, esse monte de gente ta la fora por conta do que ta acontecendo?
-Olha, eu nao sei como está la fora na entrada do Hospital. Mas se você ta perguntando se está cheio devido ao coronavirus, posso te dizer que de internação, está sim. Tem poucos leitos vagos. Então, se estão se perguntando se tudo isso é verdade, não só é verdade como está pior do que parece.
O namorado interrompe:
-Mas é só gente com doença, né? Mais velho?
-A maioria sim...mas tem gente jovem sem comorbidade (doença), internando tambem.
Eles se calam.
-Fulana, vai ali no banheiro pra colocar o avental pra eu te examinar, tudo bem?
....
Durante o exame, ela solta:
- Vocês não tem medo, não? De trabalhar assim, nessa situacao?
Gente. Já era meu segundo plantao do fim de semana. Ja tinha atendido suspeita de covid, operado suspeita de covid rezando pra nao me irritar com aquele monte de epi que te protege mas atrapalha tudo, ja tinha pensado em sair de casa, já tinha me estressado com várias mudancas na residencia....Mas, aquela pergunta veio como uma lança cortante que abre a cicatriz que você tá tentando esconder a duras penas. Aquilo que quando você menos espera, alguem traz a tona de modo tão gentil, sincero e ingenuo, que sua única saída é ser sincera também, mas sem descompensar:
- Temos. Temos muito medo (por mim e pelos meus, pensei). Mas a gente escolheu essa profissão, não da pra fugir. Por isso que tem tantos relatos de medicos pedindo para as pessoas ficarem em casa. Se pudéssemos, a gente ficaria também.
Ela silenciou.
Talvez não imaginasse que eu falei mais pra mim mesma do que pra ela: "Não da pra fugir...".

Passei o plantão. Saí do hospital e tinha realmente muita gente na entrada. Olhei pra Lua, linda. Daquelas fininhas pontiagudas. Pensei porque diacho a gente valoriza tanto a Lua cheia quando a lua crescente/minguante é tão bonita quanto. Toda desenhada. Perguntei- me quando que a gente vai poder fugir um pouquinho pra um céu aberto e ficar olhando pra cima contando as estrelas e admirando a Lua. Só pra lembrar que o mundo é bonito. Enfim.
Entrei no carro, liguei o rádio e o destino apronta:
"Vamos fugir....leave me alone....desse lugar baby...leave alone...ah vamos fugiiiir....pra onde quer que você vá, que você me carregue".
Lacrimejo.
Nossa pequenez nesse mundão não nos permite saber os planos de Quem prega essas peças em nós (um tanto criativas por sinal). Nos resta nossas próprias interpretações.
A mim, nao soou como um conselho. Talvez mais como um desejo que não pode se realizar. Talvez mais como um respiro de fim de plantão. Acabou por hoje.
Vai, descansa, depois tem mais.
Mais gente estressada, mais fluxos que mudam toda hora, mais escalas novas em especialidades que não são a minha, mais pacientes suspeitos, mais trabalho, menos aprendizado, mais cansaço, menos lazer, mais notícias ruins, menos isolamento. Mais medo.
Vai. Descansa. Respira. Ora. Confia. Torce. Se acalma. Se controla. Não desiste. Não se desespera.
"Não da pra fugir".

segunda-feira, 30 de março de 2020

A invisibilidade do caos

Estamos vivendo dias assustadores.
Ninguém nunca imaginou o mundo inteirinho parado por um vírus. Pelo insivivel (Ou por qualquer outro motivo que seja). Um mundo, literalmente, vazio nas ruas. E ainda assim, caótico. Nossos maiores gritos de medo, angústia e tristeza se traduzem no silêncio incômodo de todas as esquinas.
É estranho. Por que nunca estivemos tão isolados e, ao mesmo tempo, tão próximos de tantas outras nações.
Estamos mais voltados para dentro de nós mesmos: pensamos sobre a vida, sobre o que valorizamos, sobre aonde vamos parar, sobre quando vai acabar, sobre o que tudo isso vai deixar. Estamos sozinhos, cada um com suas reflexões e, ao mesmo tempo, conectados por esse fio longo da fragilidade humana.
Alguns, possuem um barco pra essa tempestade. Outros, um navio. E há ainda os que tem apenas uma canoa. Mas, invariavelmente, o mar está de ressaca pra todos os seus navegantes. (Na verdade, está mais pra um tsunami, mas acho ressaca mais poetico rs).
"Será que eu consigo passar?". Pensa o barco. O navio. E a canoa. Tem gente que tem 1 pessoa na navegação. Tem gente que tem 10. E tem gente que, além de navegar, está tentando fazer a onda parar.
Os que caem no mar e se afogam, seguem sozinhos sem despedidas. A tempestade não permite as formas mais clássicas de afeto. A despedida. O abraço. O beijo. O calor.

A gente está tendo que se reinventar todos os dias. E um de cada vez. Seja num afazer novo em casa, seja aumentando ou diminuindo a quantidade de informações que recebemos, seja com novas(ou antigas) formas de conversa, seja se permitindo não fazer nada. Todos os dias. Repito, um de cada vez, cada um de nós, tem que lidar, de novo, e de novo, e de novo, com esse turbilhão de sentimentos que nos invade ao abrir os olhos e perceber que, nada acabou.

São dias difíceis. É como se parte da alegria genuína e otimismo se esvaizem só resta-se angústia e desânimo. Desculpe se esse nao é mais um desses textos otimistas, engajando para sermos solidários ou acreditar que tudo vai passar.
Mas é sincero. Um desabafo.
Os números crescem na mesma velocidade que as notícias sobre novas besteiras ditas por líderes políticos (ou lider político). E eu já nem sei se estamos cansados pelo medo da doença a nós e aos nossos, pelo turbilhao de informações negativas todos os dias, pela exposição diaria dos profissionais da saúde ou pela briga política claramente ignorante sobre uma das piores catástrofes deste século. Se a morte das pessoas te afeta menos do que as engrenagens da economia, então, falhamos como humanidade. E isso também cansa. Explicar o óbvio.
Nao sei se é isso ou tudo isso junto.
A tempestade é dentro e fora de nós. A todo tempo. Apesar dos silencios.
Eu nunca quis e continuo nao querendo o heroísmo médico. Sinceramente, só quero que passe. Logo. E, principalmente, sem (muitas mais) sequelas.

Peço a Deus uma fé maior. Pra ter a certeza de que Ele cuida de todas as tempestades. Todos barcos. E todos os tripulantes. Para confiar que vai passar.
E que seremos melhores pessoas, entende se, que se importam uns com os outros.
Se o mundo todo está um só dentro de casa, que continuemos um só ao sairmos dela.



domingo, 17 de novembro de 2019

Somos instante.

Fomos dormir sorrindo. Estávamos juntos e, depois que a gente cresce, percebe que estar junto é o grande presente da vida. É difícil estar presente. E mais difícil ainda juntar as presenças. Mas até que conseguimos em bom número. O suficiente pra estar em casa. Pra rir um do outro, comer até cansar e comer mais, pra recontar as mesmas histórias, pra ouvir as mesmas piadas das mesmas pessoas e as novas fofocas da novela e da vida real.
Fomos dormir prontos pro dia seguinte. Já tínhamos dividido as tarefas pra festa. Alguns pra pegar as cadeiras, outros pra decoração e outros pro cardápio. Fomos dormir.

Na montanha, o Sol se abre mais cedo. Esquenta antes. E talvez, ja anunciasse um dia mais longo.
"A tia morreu". Ouvi de longe e num cochicho. Abro um olho só e vejo que era minha outra tia vindo noticiar o que a gente esperava inesperadamente.
Eu fechei o olho como quem quer acreditar por alguns segundos que se a gente fecha os olhos, o real se esvai.
Mas a movimentacao continuou. Meu primo acordou. Minha prima desaguou.
Eu parei de mentir pra mim mesma e numa palavra(o) em pensamento, abri os olhos pro dia que se seguiria.
Por alguns minutos eu pensei "mas a gente se reuniu pra uma festa. Nao acredito. A gente vai pra um enterro" . Mas foi egoísmo. Por que se a morte é a primeira certeza, a segunda é que a vida é imprevisível. E a terceira, mas nesse caso é mais uma crença pessoal, é que tudo tem o tempo certo pra acontecer.
E eu lembrei que estava com quem deveria estar. Minha família. No lugar que deveria estar, na metade do caminho. E no dia que deveria estar, todos vivendo aquele momento unidos.
E então, agradeci. Por que coisas assim, só podem ser divinas.
O dia foi longo.
As viagens longas.
Os abraços longos e apertados.
Mas foi bonito de ver.
Lembra que eu disse que o maior presente é a presença? Pois entao, imagina se fazer presente num momento de tristeza, que dificil! Pois bem, foi nesse momento que eu vi o amor em sua forma crua e em diferentes gestos.
No choro, no aperto de mao, no abraço apertado, na palavra amiga, na oração, no olhar perdido, no andar sem rumo.
Foram os familiares. Os amigos. Os familiares dos amigos. Os amigos dos familiares. Os familiares dos familiares. Todas as combinações possíveis.
Eu vi minha família sofrendo. Mas a vi cheia de amor. Porque nos amamos entre nós. Mas por quem estava lá nos demonstrando amor.

E, olhando ali o fim da vida, só me resta dizer que o que fica é isso mesmo: o amor.
Ninguem lembra do que você comprou, do trabalho que cumpriu, dos boletos que adquiriu, do que leu ou viu. O que fica é amor. Traduzido em memória, em afeto, em ensinamento, em momento.
A morte é a única certeza da vida e vivemos como se a vida fosse eterna.
Não sei se é defesa porque pensar nisso todo dia é assustador. Nao sei se é a repetição diária que nos dá a má impressao do oposto. Nao sei se nosso cérebro foi sintonizado em outra regra. Eu nao sei porque a gente vive fingindo nao saber qual é a nossa maior certeza.

Só sei que momentos assim, que ela vem tão pertinho, ela assusta. A morte mesmo. Ela nunca passa ilesa. Traz consigo a sensação e a reflexão necessária ao tempo que nos resta. Mesmo sem saber o quanto é exatamente.

Um belo (ou não tão belo assim) saímos de casa pela ultima vez. Nos vemos pela ultima vez. Abraçamos pela ultima vez. Esquecemos a chave pela ultima vez. Brigamos pela ultima vez. Sorrimos pela ultima vez. Ouvimos musica pela ultima vez. Fizemos a ultima viagem. Comemos nosso doce preferido pela ultima vez. Pagamos o boleto pela ultima vez. Dançamos pela ultima vez. Encontramos nosso amigo pela ultima vez. Beijamos nosso amor pela ultima vez. Ou ainda, deixamos passar o amor pela última vez.
Perdoamos pela ultima vez. Compramos aquela roupa bonita pela ultima vez.
Respiramos. Abrimos o olho. Pensamos. Pela ultima vez. E sabe qual a grande diferença das primeiras vezes? É que nunca saberemos qual vai ser a última.
E a certeza da vida é justamente essa: a de que haverá a última vez. A gente só nao sabe qual das vezes será.

A gente não parou pra pensar mas mesmo sem morrer, já se passaram algumas ultimas vezes. Daquela pessoa que mora longe. Daquele amigo de infância. Daquele prato naquela cidadezinha pequena que voce nao vai voltar. Daquela árvore que vc subiu no parque nas férias. Daquele sapato que nao cabe mais no seu pé adulto. Daquele abraço de quem simplesmente passou pela sua vida. Daquela carta de amor que já nao faz mais sentido. Daquele brinquedo que era o seu preferido. Daquele pijama de bichinho que já ficou pequeno.

Mas a gente não sabia. Nao sabe que era a última. E talvez, se esse é o grande mistério da vida, nós precisamos, todos os dias, relembrar que pode sim ser o último.

Se o que nos resta, é a memória de quem fica, é no outro continuamos vivos. É no fazer bem. No querer bem. No tantão(ou tantinho) que amamos e deixamos amar.
Engraçado que ir pra terra(em letra minúscula mesmo) é tao chocante quanto óbvio e, nada, nada, nada, parece resistir a isso. Egoísmo, competição, ganância, dinheiro, inveja, soa supérfluo perto da brevidade da vida.

Um belo(ou não tão belo) dia, a gente expira. E acaba.
Ninguém sabe que sopro é esse que faz nosso corpo funcionar. E que faz ele parar.
Mas, chamamos esse período do meio de vida. Contada em forma de tempo. Ninguém sabe porque, quando ou aonde. Mas só que estamos. Somos instante com a falsa ideia de sermos pra sempre. Mas somos apenas presente. E temos sim.
Que o fato de ter fim, nos sirva de lição pra sempre sermos recomeço. Inteiros. E verdadeiramente, amor.

Vá em paz, tia Cema. E que "Deus te abençoe e te dê em dobro ".

"Por que tu es pó, e ao pó voltará ".


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Nao leia. Não é fofo. Bjs.

No início, você acha fácil. Pega aqui sua personalidade, seus valores, seus sonhos e objetivos e vai. Nada vai te parar. Você, coitada, acha que vai.
Mas te dizer, que não é bem assim.
O mundo, ja dizia e sempre disse meu pai, é injusto, filha. E eu insisto em procurar justiça. Mas é em vão. As pessoas, seja no fundo ou no raso, vivem dentro do seu proprio egoísmo e do seu proprio interesse e por ali ficam. Qualquer coisa ou qualquer um que ouse abalar esse estado de prioridade do eu, será atingido. Seja por palavras sutis com intenções disfarçadas, seja com atitudes sinceras de agressividade, seja com frases de efeito que,por algum momento, você até pode se deixar levar. Mas só por um momento.
Nesses discursos inúmeros que veem o raso, esconde se o maior dos problemas: a hipocrisia.
A corda, pro lado mais fraco, sempre. O outro, na bolha intocável de muito ar e pouca agua. E lá se vai mais uma vez nossa fé na humanidade. Cada um por si e ninguém por ninguém. Que imbecis somos todos: qualquer lógica física, matemática, antropológica, religiosa, astronômica, astrológica (qual quer uma) mostra o quanto o conjunto é melhor que a parte. O todo funciona sempre, melhor que seu componente. Mas a gente insiste se botar antes. E "que se dane os outros".

Eu, sinceramente, tenho muita dificuldade de discutir o raso, se o problema é mais profundo. E desisto. Algumas pessoas tem o dom de, na superficie, lidar com o que parece óbvio pra mergulhar depois no que realmente atinge. Mas eu não. Se todo mundo fala do tapete e nao da poeira que ta embaixo, eu nao consigo falar de mais nada.
Pra mim, não há a copa da árvore se nao houver raiz.

Que descrenca nas pessoas. No que elas parecem e no que elas são. No interesse disfarcado de bondade. Na ironia disfarçada de gentileza. No egoísmo disfarcado de competencia.
Que vergonha em quem olha pros outros sem olhar pra si mesmo. Em quem se ocupa dos problemas alheios sem perceber que, na verdade, sao seus.
Que raiva por quem sofre o que nao tem culpa. Ou foi julgado com a ação que nunca foi sua.

Eu olho pra cima e, sinceramente, entendo os políticos que temos. A gente merece ca da um deles. Com todas as suas podridoes, corrupcoes e desvios de caráter (desvio nao ne, pq vamo combinar que ninguem desvia, cada um escolhe muito bem o caminho que quer pegar).
Como povo, somos o mesmo que eles. Somos o povo do jeitinho, de se dar bem, de sair melhor, de passar na frente. Somos a galera do "vai que da", do "so mais esse ne", do "ninguem ta vendo", do "o mundo é dos espertos".
Somos o país do Carnaval. Quem me dera fossemos só alegria desenfreada e fantasia purpurinada. Somos carnaval o ano inteiro pela balbúrdia de fingirmos o que não somos: corretos.