segunda-feira, 27 de abril de 2020

Pra onde quer que você vá

26 de abril de 2020
18:53h
Último atendimento do plantão:
Entra uma menina de 20 anos, cabelos cacheados, magrinha, fala mansa, postura calma, máscara colorida, acompanhada do namorado.
-Boa noite, meu nome é Lia, sou médica do plantão, como posso te ajudar?
-(Queixa x y z)...dra, esse monte de gente ta la fora por conta do que ta acontecendo?
-Olha, eu nao sei como está la fora na entrada do Hospital. Mas se você ta perguntando se está cheio devido ao coronavirus, posso te dizer que de internação, está sim. Tem poucos leitos vagos. Então, se estão se perguntando se tudo isso é verdade, não só é verdade como está pior do que parece.
O namorado interrompe:
-Mas é só gente com doença, né? Mais velho?
-A maioria sim...mas tem gente jovem sem comorbidade (doença), internando tambem.
Eles se calam.
-Fulana, vai ali no banheiro pra colocar o avental pra eu te examinar, tudo bem?
....
Durante o exame, ela solta:
- Vocês não tem medo, não? De trabalhar assim, nessa situacao?
Gente. Já era meu segundo plantao do fim de semana. Ja tinha atendido suspeita de covid, operado suspeita de covid rezando pra nao me irritar com aquele monte de epi que te protege mas atrapalha tudo, ja tinha pensado em sair de casa, já tinha me estressado com várias mudancas na residencia....Mas, aquela pergunta veio como uma lança cortante que abre a cicatriz que você tá tentando esconder a duras penas. Aquilo que quando você menos espera, alguem traz a tona de modo tão gentil, sincero e ingenuo, que sua única saída é ser sincera também, mas sem descompensar:
- Temos. Temos muito medo (por mim e pelos meus, pensei). Mas a gente escolheu essa profissão, não da pra fugir. Por isso que tem tantos relatos de medicos pedindo para as pessoas ficarem em casa. Se pudéssemos, a gente ficaria também.
Ela silenciou.
Talvez não imaginasse que eu falei mais pra mim mesma do que pra ela: "Não da pra fugir...".

Passei o plantão. Saí do hospital e tinha realmente muita gente na entrada. Olhei pra Lua, linda. Daquelas fininhas pontiagudas. Pensei porque diacho a gente valoriza tanto a Lua cheia quando a lua crescente/minguante é tão bonita quanto. Toda desenhada. Perguntei- me quando que a gente vai poder fugir um pouquinho pra um céu aberto e ficar olhando pra cima contando as estrelas e admirando a Lua. Só pra lembrar que o mundo é bonito. Enfim.
Entrei no carro, liguei o rádio e o destino apronta:
"Vamos fugir....leave me alone....desse lugar baby...leave alone...ah vamos fugiiiir....pra onde quer que você vá, que você me carregue".
Lacrimejo.
Nossa pequenez nesse mundão não nos permite saber os planos de Quem prega essas peças em nós (um tanto criativas por sinal). Nos resta nossas próprias interpretações.
A mim, nao soou como um conselho. Talvez mais como um desejo que não pode se realizar. Talvez mais como um respiro de fim de plantão. Acabou por hoje.
Vai, descansa, depois tem mais.
Mais gente estressada, mais fluxos que mudam toda hora, mais escalas novas em especialidades que não são a minha, mais pacientes suspeitos, mais trabalho, menos aprendizado, mais cansaço, menos lazer, mais notícias ruins, menos isolamento. Mais medo.
Vai. Descansa. Respira. Ora. Confia. Torce. Se acalma. Se controla. Não desiste. Não se desespera.
"Não da pra fugir".

segunda-feira, 30 de março de 2020

A invisibilidade do caos

Estamos vivendo dias assustadores.
Ninguém nunca imaginou o mundo inteirinho parado por um vírus. Pelo insivivel (Ou por qualquer outro motivo que seja). Um mundo, literalmente, vazio nas ruas. E ainda assim, caótico. Nossos maiores gritos de medo, angústia e tristeza se traduzem no silêncio incômodo de todas as esquinas.
É estranho. Por que nunca estivemos tão isolados e, ao mesmo tempo, tão próximos de tantas outras nações.
Estamos mais voltados para dentro de nós mesmos: pensamos sobre a vida, sobre o que valorizamos, sobre aonde vamos parar, sobre quando vai acabar, sobre o que tudo isso vai deixar. Estamos sozinhos, cada um com suas reflexões e, ao mesmo tempo, conectados por esse fio longo da fragilidade humana.
Alguns, possuem um barco pra essa tempestade. Outros, um navio. E há ainda os que tem apenas uma canoa. Mas, invariavelmente, o mar está de ressaca pra todos os seus navegantes. (Na verdade, está mais pra um tsunami, mas acho ressaca mais poetico rs).
"Será que eu consigo passar?". Pensa o barco. O navio. E a canoa. Tem gente que tem 1 pessoa na navegação. Tem gente que tem 10. E tem gente que, além de navegar, está tentando fazer a onda parar.
Os que caem no mar e se afogam, seguem sozinhos sem despedidas. A tempestade não permite as formas mais clássicas de afeto. A despedida. O abraço. O beijo. O calor.

A gente está tendo que se reinventar todos os dias. E um de cada vez. Seja num afazer novo em casa, seja aumentando ou diminuindo a quantidade de informações que recebemos, seja com novas(ou antigas) formas de conversa, seja se permitindo não fazer nada. Todos os dias. Repito, um de cada vez, cada um de nós, tem que lidar, de novo, e de novo, e de novo, com esse turbilhão de sentimentos que nos invade ao abrir os olhos e perceber que, nada acabou.

São dias difíceis. É como se parte da alegria genuína e otimismo se esvaizem só resta-se angústia e desânimo. Desculpe se esse nao é mais um desses textos otimistas, engajando para sermos solidários ou acreditar que tudo vai passar.
Mas é sincero. Um desabafo.
Os números crescem na mesma velocidade que as notícias sobre novas besteiras ditas por líderes políticos (ou lider político). E eu já nem sei se estamos cansados pelo medo da doença a nós e aos nossos, pelo turbilhao de informações negativas todos os dias, pela exposição diaria dos profissionais da saúde ou pela briga política claramente ignorante sobre uma das piores catástrofes deste século. Se a morte das pessoas te afeta menos do que as engrenagens da economia, então, falhamos como humanidade. E isso também cansa. Explicar o óbvio.
Nao sei se é isso ou tudo isso junto.
A tempestade é dentro e fora de nós. A todo tempo. Apesar dos silencios.
Eu nunca quis e continuo nao querendo o heroísmo médico. Sinceramente, só quero que passe. Logo. E, principalmente, sem (muitas mais) sequelas.

Peço a Deus uma fé maior. Pra ter a certeza de que Ele cuida de todas as tempestades. Todos barcos. E todos os tripulantes. Para confiar que vai passar.
E que seremos melhores pessoas, entende se, que se importam uns com os outros.
Se o mundo todo está um só dentro de casa, que continuemos um só ao sairmos dela.



domingo, 17 de novembro de 2019

Somos instante.

Fomos dormir sorrindo. Estávamos juntos e, depois que a gente cresce, percebe que estar junto é o grande presente da vida. É difícil estar presente. E mais difícil ainda juntar as presenças. Mas até que conseguimos em bom número. O suficiente pra estar em casa. Pra rir um do outro, comer até cansar e comer mais, pra recontar as mesmas histórias, pra ouvir as mesmas piadas das mesmas pessoas e as novas fofocas da novela e da vida real.
Fomos dormir prontos pro dia seguinte. Já tínhamos dividido as tarefas pra festa. Alguns pra pegar as cadeiras, outros pra decoração e outros pro cardápio. Fomos dormir.

Na montanha, o Sol se abre mais cedo. Esquenta antes. E talvez, ja anunciasse um dia mais longo.
"A tia morreu". Ouvi de longe e num cochicho. Abro um olho só e vejo que era minha outra tia vindo noticiar o que a gente esperava inesperadamente.
Eu fechei o olho como quem quer acreditar por alguns segundos que se a gente fecha os olhos, o real se esvai.
Mas a movimentacao continuou. Meu primo acordou. Minha prima desaguou.
Eu parei de mentir pra mim mesma e numa palavra(o) em pensamento, abri os olhos pro dia que se seguiria.
Por alguns minutos eu pensei "mas a gente se reuniu pra uma festa. Nao acredito. A gente vai pra um enterro" . Mas foi egoísmo. Por que se a morte é a primeira certeza, a segunda é que a vida é imprevisível. E a terceira, mas nesse caso é mais uma crença pessoal, é que tudo tem o tempo certo pra acontecer.
E eu lembrei que estava com quem deveria estar. Minha família. No lugar que deveria estar, na metade do caminho. E no dia que deveria estar, todos vivendo aquele momento unidos.
E então, agradeci. Por que coisas assim, só podem ser divinas.
O dia foi longo.
As viagens longas.
Os abraços longos e apertados.
Mas foi bonito de ver.
Lembra que eu disse que o maior presente é a presença? Pois entao, imagina se fazer presente num momento de tristeza, que dificil! Pois bem, foi nesse momento que eu vi o amor em sua forma crua e em diferentes gestos.
No choro, no aperto de mao, no abraço apertado, na palavra amiga, na oração, no olhar perdido, no andar sem rumo.
Foram os familiares. Os amigos. Os familiares dos amigos. Os amigos dos familiares. Os familiares dos familiares. Todas as combinações possíveis.
Eu vi minha família sofrendo. Mas a vi cheia de amor. Porque nos amamos entre nós. Mas por quem estava lá nos demonstrando amor.

E, olhando ali o fim da vida, só me resta dizer que o que fica é isso mesmo: o amor.
Ninguem lembra do que você comprou, do trabalho que cumpriu, dos boletos que adquiriu, do que leu ou viu. O que fica é amor. Traduzido em memória, em afeto, em ensinamento, em momento.
A morte é a única certeza da vida e vivemos como se a vida fosse eterna.
Não sei se é defesa porque pensar nisso todo dia é assustador. Nao sei se é a repetição diária que nos dá a má impressao do oposto. Nao sei se nosso cérebro foi sintonizado em outra regra. Eu nao sei porque a gente vive fingindo nao saber qual é a nossa maior certeza.

Só sei que momentos assim, que ela vem tão pertinho, ela assusta. A morte mesmo. Ela nunca passa ilesa. Traz consigo a sensação e a reflexão necessária ao tempo que nos resta. Mesmo sem saber o quanto é exatamente.

Um belo (ou não tão belo assim) saímos de casa pela ultima vez. Nos vemos pela ultima vez. Abraçamos pela ultima vez. Esquecemos a chave pela ultima vez. Brigamos pela ultima vez. Sorrimos pela ultima vez. Ouvimos musica pela ultima vez. Fizemos a ultima viagem. Comemos nosso doce preferido pela ultima vez. Pagamos o boleto pela ultima vez. Dançamos pela ultima vez. Encontramos nosso amigo pela ultima vez. Beijamos nosso amor pela ultima vez. Ou ainda, deixamos passar o amor pela última vez.
Perdoamos pela ultima vez. Compramos aquela roupa bonita pela ultima vez.
Respiramos. Abrimos o olho. Pensamos. Pela ultima vez. E sabe qual a grande diferença das primeiras vezes? É que nunca saberemos qual vai ser a última.
E a certeza da vida é justamente essa: a de que haverá a última vez. A gente só nao sabe qual das vezes será.

A gente não parou pra pensar mas mesmo sem morrer, já se passaram algumas ultimas vezes. Daquela pessoa que mora longe. Daquele amigo de infância. Daquele prato naquela cidadezinha pequena que voce nao vai voltar. Daquela árvore que vc subiu no parque nas férias. Daquele sapato que nao cabe mais no seu pé adulto. Daquele abraço de quem simplesmente passou pela sua vida. Daquela carta de amor que já nao faz mais sentido. Daquele brinquedo que era o seu preferido. Daquele pijama de bichinho que já ficou pequeno.

Mas a gente não sabia. Nao sabe que era a última. E talvez, se esse é o grande mistério da vida, nós precisamos, todos os dias, relembrar que pode sim ser o último.

Se o que nos resta, é a memória de quem fica, é no outro continuamos vivos. É no fazer bem. No querer bem. No tantão(ou tantinho) que amamos e deixamos amar.
Engraçado que ir pra terra(em letra minúscula mesmo) é tao chocante quanto óbvio e, nada, nada, nada, parece resistir a isso. Egoísmo, competição, ganância, dinheiro, inveja, soa supérfluo perto da brevidade da vida.

Um belo(ou não tão belo) dia, a gente expira. E acaba.
Ninguém sabe que sopro é esse que faz nosso corpo funcionar. E que faz ele parar.
Mas, chamamos esse período do meio de vida. Contada em forma de tempo. Ninguém sabe porque, quando ou aonde. Mas só que estamos. Somos instante com a falsa ideia de sermos pra sempre. Mas somos apenas presente. E temos sim.
Que o fato de ter fim, nos sirva de lição pra sempre sermos recomeço. Inteiros. E verdadeiramente, amor.

Vá em paz, tia Cema. E que "Deus te abençoe e te dê em dobro ".

"Por que tu es pó, e ao pó voltará ".


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Nao leia. Não é fofo. Bjs.

No início, você acha fácil. Pega aqui sua personalidade, seus valores, seus sonhos e objetivos e vai. Nada vai te parar. Você, coitada, acha que vai.
Mas te dizer, que não é bem assim.
O mundo, ja dizia e sempre disse meu pai, é injusto, filha. E eu insisto em procurar justiça. Mas é em vão. As pessoas, seja no fundo ou no raso, vivem dentro do seu proprio egoísmo e do seu proprio interesse e por ali ficam. Qualquer coisa ou qualquer um que ouse abalar esse estado de prioridade do eu, será atingido. Seja por palavras sutis com intenções disfarçadas, seja com atitudes sinceras de agressividade, seja com frases de efeito que,por algum momento, você até pode se deixar levar. Mas só por um momento.
Nesses discursos inúmeros que veem o raso, esconde se o maior dos problemas: a hipocrisia.
A corda, pro lado mais fraco, sempre. O outro, na bolha intocável de muito ar e pouca agua. E lá se vai mais uma vez nossa fé na humanidade. Cada um por si e ninguém por ninguém. Que imbecis somos todos: qualquer lógica física, matemática, antropológica, religiosa, astronômica, astrológica (qual quer uma) mostra o quanto o conjunto é melhor que a parte. O todo funciona sempre, melhor que seu componente. Mas a gente insiste se botar antes. E "que se dane os outros".

Eu, sinceramente, tenho muita dificuldade de discutir o raso, se o problema é mais profundo. E desisto. Algumas pessoas tem o dom de, na superficie, lidar com o que parece óbvio pra mergulhar depois no que realmente atinge. Mas eu não. Se todo mundo fala do tapete e nao da poeira que ta embaixo, eu nao consigo falar de mais nada.
Pra mim, não há a copa da árvore se nao houver raiz.

Que descrenca nas pessoas. No que elas parecem e no que elas são. No interesse disfarcado de bondade. Na ironia disfarçada de gentileza. No egoísmo disfarcado de competencia.
Que vergonha em quem olha pros outros sem olhar pra si mesmo. Em quem se ocupa dos problemas alheios sem perceber que, na verdade, sao seus.
Que raiva por quem sofre o que nao tem culpa. Ou foi julgado com a ação que nunca foi sua.

Eu olho pra cima e, sinceramente, entendo os políticos que temos. A gente merece ca da um deles. Com todas as suas podridoes, corrupcoes e desvios de caráter (desvio nao ne, pq vamo combinar que ninguem desvia, cada um escolhe muito bem o caminho que quer pegar).
Como povo, somos o mesmo que eles. Somos o povo do jeitinho, de se dar bem, de sair melhor, de passar na frente. Somos a galera do "vai que da", do "so mais esse ne", do "ninguem ta vendo", do "o mundo é dos espertos".
Somos o país do Carnaval. Quem me dera fossemos só alegria desenfreada e fantasia purpurinada. Somos carnaval o ano inteiro pela balbúrdia de fingirmos o que não somos: corretos.

sábado, 21 de setembro de 2019

O brilho das rugas

Semana passada minha prima resgatou umas fotos antigas. Dentre elas, tinha uma da minha vó.
Só  dela, focada no rosto, com o olho brilhante conquistando quam olhava a foto e um sorriso frouxo. O sorriso que ela gargalhava quando ia dar alguma bronca pós implicância de algum neto.
Nao sei quem tirou a foto, mas arrisco em dizer que ela tava sorrindo dizendo que não era pra tirar foto.

Eu com frequência lembro dos meus avós. Mas essa lembrança mais recente me fez, não sem saudade, refletir sobre quem são essas pessoas em nossas vidas.

Meus pais sao os caçulas de uma família grande. O que significa dizer que, quando eu nasci, meus avós já nao tinha mais a energia que algum dia tiveram.
Eles não passeavam muito, andavam com dificuldade, não era a coisa mais divertida do mundo estar com eles. "Da um beijo na sua vó " " nos vamos na casa da batian e do ditian, se arrume" e assim, ainda que eu nao entendesse muito o porquê atrasar a ida a pizarua pra ficar no sofa vendo Silvio Santos, eu ia.

A primeira vez que eu perdi alguém que me mostrou o que é sentir a morte, foi minha vó. Eu lembro até hoje do quanto mil coisas se passaram na minha cabeça quando meu pai chegou em casa mais cedo, se aproximou de mim, agachou e soltou " a vó  descansou". Eu arrumei as malas com a visao turva e pensei o quanto cada ligação, ainda que as conversas fossem " ta tudo bem? Melhoras...", foram importantes.
Eu nunca ouvi tantas historias dela, depois que ela partiu. Talvez a saudade faça isso, traz a tona as vivencias de cada um com a pessoa e eu, com meus 16 anos, ouvi atentamente a cada uma delas. E parece que passei a conhecer e a admira la ainda mais.
Agradeci a minha mãe por mandar eu dizer bom dia toda vez que levantava na casa dela. "Mas mae ela ta vendo tv"  "mas vai la dar um bj nela".
Minhas lembrancas eram mais sutis, mas agradeci por te las.

E a ficha caiu. Ainda me restava o tempo com meus outros avós. Se tem algo que alguem ja viveu mais de 80 anos gosta de fazer, é contar. E percebi que a gente podia nao sair pra dançar , ir no cinema ou ter um dia muito louco pulando de paraquedas. Mas talvez n9 mesmo sofá que passava Silvio Santos, eu pudesse ter um momento igualmente inesquecível. Ouvir suas historias. Meus avós vieram do Japão pos segunda guerra. Num navio por 3 meses e com 2 bebês no colo. E naqueles dias que pareciam comuns, eu desvendei a minha propria historia. Vi fotos. E olhava aquelas rugas todas, aquele jeitinho devagar de andar e aqueles olhinhos pequeninos e puxados falando um portugues bem japones e sabia que era aquele momento que eu guardaria pra mim.

Eles também se foram. E também doeu.
Mas me fez pensar muito sobre o papel da gente nessa vida.
Avó e avô são pessoas que simplesmente, estão ali.
E por muitas vezes, dão trabalho. O fim da vida é parecido com seu início .Exige cuidado, atencao, carinho, paciência, tempo. E pode parecer que nao ha nada em troca. Eles simplesmente estão ali.
Por vezes, e nao sem razao, a gente até pensa "sera que ja nao chegou a hora?". Mas a hora nao e a gente que sabe. E ainda bem.
Mas aí a hora realmente chega e voce percebe que, "estar ali" era o grande presente. Sao as pessoas que começaram sua família.  Sao as que estavam nesse mundo muito antes de você pensar em existir. São eles os motivos de unir a familia, nem que seja só no fim do ano. Parecem cristais prestes a quebrar, mas a verdade é que a pele enrugada e a lentidão sao as marcas de quem já cansou de ser forte.

As vezes, eu só queria ligar e trocar aquela meia duzia de palavras cotidianas. Ou segurar no braco deles e ajudar a descer o degrau. As vezes, só queria abrir o embrulho todo brilhante e agradecer aquela toalha de banho colorida. Ou reclamar que o beijo da vó molhou toda minha bochecha.
Talvez a grande ironia da vida seja justamente  ter mais tempo com eles quando se é crianca e ser criança e não valorizar o tempo com eles.
E quando a gente cresce, eles já foram. E nos resta a saudade e a lição de que o amor está, literalmente, nos "pequenos" momentos.

sábado, 14 de setembro de 2019

De(s)cida

O amor não é um sentimento.
Ta chocado, ne? É . Eu sei. Mas amor é verbo de ação e não substantivo comum. Aprendemos errado.
Sentimento é paixão. Alegria. Tristeza. Raiva. Ansiedade. Medo. Isso tudo é  sentimento.
Amor não.
Amor é uma decisão.
É o que vem depois do sentimento.
Apaixonar se, por exemplo, é passo primeiro do amor romântico. É quando surge a pergunta da decisão de amar. Não é amor. Nem precisa virar. Mas pode. As vezes, deve. Mas não é curso natural. É escolha.

Amar é decdir ficar. Decidir estar. Decidir fazer.
Por isso que essa história de único amor da vida ou metade da laranja ou pé descalço pra chinelo velho é tudo história mal contada de quem confundiu sentir com decidir.
Explico me.
Se só existisse uma pessoa pra cada outra pessoa no mundo, que desesperador seria se elas nao se encontrassem por acerto do acaso ou erro do destino? E como explicar as paixões que deixaram de ser? Os terminos sofridos e os novos amores?
Ingenuidade achar que se tratam de erros ou encaixes imperfeitos de novas pessoas ou oportunidade perdida. Ou simplesmente botar na conta do amor que ele acaba, sem ora nem beira, sem sinal de fumaça. Imagina todo uma vida com o final "é que o amor acabou". Não. O que acabou foi a admiração, a paixão, a vontade de ficar.

Por isso que eu digo. Amor é decisão.
É, todos os dias, reafirmar a si mesmo, a decisão de compartilhar. De ser inteiro na metade dos dois. De repensar a si mesmo. De se doar. De transformar e se deixar transformar. Se retroalimenta na sua reciprocidade. Cresce e transcende quem o carrega. E o contrário, é verdadeiro.
Paixão interrompe, avança, cresce, encanta, mas essa sim pode acabar. Mas deixa no ar a pergunta a ser respondida com o amor. E dentro dessa nuvem, resta a serenidade de querer o outro todos os dias.

Nessa perspectiva, o amor contemporaneo nao se vestiu de liquidez e resolveu acabar mais rápido. Na verdade, por acreditar que foi amor, as pessoas acham que acabou. Mas num mundo com tanta facilidade e pouca responsabilidade,o ato de decidir fica sempre pra depois. Amar vem depois. Ou nunca vem. "Chama o próximo" , ja que o sentir desse ja acabou. Amar da trabalho pordimaais. Te deixa vulneravel, exige tempo, auto e re-conhecimento, dói, cansa, desconforta.
E nesse descompromisso com a decisao, a gente deixa o tempo passar. O crescer passar. A felicidade passar. O cuidado passar. O melhor passar. Nós, passar. O amor, coitado do amor, passou.



segunda-feira, 9 de setembro de 2019

A tecnica de ser

Era um dia como outro qualquer. Mas as 7h da manhã o Sol ja brilhava anunciando um dia mais quente que os anteriores.
Segunda feira. Acorda, levanta, respira e vai. Aquele recomeço de sempre e aquela preguiça de sempre também.
Mentira. Não era um dia como outro qualquer. Era o dia. Aquele que marcamos no calendário. Que ficamos sem dormir. Que as borboletas invadem o estômago e trocam a fome pela ansiedade.
Entraram no carro e se olharam. Tomara que dê certo dessa vez. Mais uma vez. Até quando a gente insiste? Até quando persiste? Quem limita o caminho de um sonho?
Para os outros, poderia ser um casal entrando no shopping. Para eles, era o abstrato de quatro paredes que agora seria o concreto visto pela imagem no ultrassom.
"Eles chegaram". "Bebeu agua?" "To bebendo".
Aguarda encher a bexiga que tomba o útero e abre o caminho. Bebe mais água.
Aguarda....aguarda....ta bom? Não...aguarda....aguarda.
Opa! Vamos? Ta cheia. Casa no lugar. Caminho retificado.

Na sala, a voz serena da médica propicia a calma necessária pra quem traz ansiedade, medo e expectativa. Respira fundo. Olha lá.
Eles se olham. As mãos se entrelaçam.
Os olhos brilham. É a esperança ali dando oi. Mentira. Oi é sutil demais. A esperança ali ta berrando. E ela vem com a cumplicidade. As duas se abraçam. E estão no beijo carinhoso. No olhar atento. No piscar prolongado. E eu, testemunha e algo sonhadora, ou talvez sonhadora e algo testemunha, sinto mais do que a técnica do aprendizado, sinto o amor entre eles que vem sob a forma de parceria. Do olhar pro mesmo querer.

"Ta vendo aquela gotinha? Ta lá, agora é so aguardar".
A vida é tao louca que a gente acha q descobriu seu segredo e trabalha com a receita.

A vida é tão louca que ela cabe num cateter pequenininho. Escorrega pra dentro da sua primeira casa. E fica.

A vida é tão louca que, a intimidade do casal, não é o corpo, ali, naquele momento, é a alma.

A vida é tão louca que a gente nem sabe se ela vai querer ser vida, mas naquele instante, já fizemos o traço todo dela com autoria da esperança.

A vida é tão louca que, mesmo a ciência gabaritada, ela só se permite se tiver que ser.

A vida é tão louca que agora, resta aguardar 14 dias pra ver se ela quis ficar e aparecer com o apelido de "beta positivo".

A vida é tão louca que, mesmo que não fique, vida ela ja é.

E loucos, somos nós.


(Relato de um dia de transferência de embrião após fertilização in vitro).